
Ainda que a febre do momento sejam as histórias de vampiros, e que livros com as tais temáticas abundem e irritem a qualquer leitor que não tenha tendência a se apaixonar por um não-morto (na minha tradução da expressão usada pelo Prof. Van Helsing) esse é um livro que vale um pouco mais de reflexão, e por que não dizer, de diversão também.
O enredo é quase que de domínio público, em grande parte pelo sucesso da adaptação de Coppola que alterou alguns aspectos: Jonathan Harker é um corretor imobiliário que a mando de seu patrão (sempre são eles os culpados) vai visitar o castelo do Conde Drácula a fim de resolver algumas questões burocráticas sobre as aquisições recentemente realizadas pelo nobre em território inglês. Porém, ele descobre que seu anfitrião é uma criatura não humana que ruma para a Inglaterra buscando expandir seu domínio maléfico.
A crítica define a obra como de horror, mas ressalvas devem ser feitas a fim de se evitar uma injustiça: o terror que há em Drácula é sutil e inteligente, devido em grande parte ao modo como a narrativa se constitui. Composta com anotações de diários e fragmentos de reportagens e correspondências, temos ao menos 4 narradores que estão em grande parte sem saber com o que exatamente estão lidando já que a ordem que os textos são dispostos no livro foi elaborada após o meio da história, e como o leitor tem conhecimento de quem é o antagonista, acompanha angustiado os infortúnios que cercam as personagens até o seu momento de compreensão e partam então na caçada pelo vampiro.
O tempo da narrativa se desenvolve no século XIX, numa sociedade encarando o que seria o auge até então do desenvolvimento científico tecnológico que o homem havia experimentado. O deslumbramento pela tecnologia desfila pelos olhos do leitor na escrita taquigráfica, na máquina de escrever, no fonógrafo, nas 4 transfusões de sangue realizadas na mesma paciente com doadores diferentes sem que haja nenhuma reação contrária e etc.
A oposição entre os heróis e o monstro está fortemente atrelada à geografia onde se desnvolvem as ações: de um lado temos a Transilvânia supersticiosa, ignorante e retrógrada; do outro a Ingalterra culta, desenvolvida científicamente e cristã. Lá, o Conde é o poder máximo, aqui, ele é derrotado. A diferença também se manifesta nos valores que estão envolvidos: O grupo humano é honrado, corajoso, movido pelo amor e amizade e pela fé e obediência a Deus; Drácula é uma criatura herege e movida unicamente pelo instinto, incapaz de desenvolver sentimentos, e apesar dos anos de existência, mostra um cérebro infantil, agindo sempre com a mesma ideia fixa que o motivara em seu passado nos campos de batalha.
Ainda há muito a se falar sobre o papel da mulher, sobre a união da fé e da ciência, sobre a medicina caseira, mas eu já estou cansado. Até outra oportunidade. É um bom livro no qual eu paguei a exorbitante quantia de 6 reais (eliminar o intermédio do tradutor traz economia).

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